sábado, 6 de abril de 2019

Intestino e a Saúde Física e Mental

Durante décadas de estudos sobre a saúde mental, muitas hipóteses foram levantadas. A possessão demoníaca era uma delas, mas outras também povoavam o imaginário popular. Ainda hoje, há quem afirme que estudar muito pode levar a pessoa a desenvolver transtornos mentais. Há quem diga ainda, que a falta de sexo também deixa a pessoa “louca”. Já se imaginou até que o formato da caixa craniana (frenologia) era um indício de saúde mental ou até mesmo propensão à criminalidade.
A vida hodierna tem nos levado a perda da qualidade de vida. Entre tantos fatores pode-se citar; a má alimentação, noites de sono mal dormidas, sedentarismo, o estresse diário, e, todos esses fatores juntos ou isolados, contribuem para um sistema imunológico deficitário, não funcional. O que culmina com o desenvolvimento de inúmeras doenças graves e resistentes a tratamentos convencionais. O estilo moderno de vida tem grandes efeitos negativos quando o assunto é qualidade de vida. As doenças cerebrovasculares e cardíacas estão sempre no topo da lista das causas de mortes no mundo. Mas, também acidentes provocados pela privação do sono, por exemplo.
Observa-se um acelerado desenvolvimento de alimentos que promovem o bem-estar, melhoram a saúde e reduzem o risco de doenças (MUSSATO e MANCILHA, 2007). Nos últimos anos, tem crescido bastante a consciência em relação a hábitos alimentares saudáveis. Embora, ainda estejamos longe de um ideal coletivo.
O intestino também é um órgão endócrino, não apenas um repositório fecal ou de resto alimentar. Por exemplo, ele regula nosso sistema imunológico. Produz diversos hormônios, entre eles, 95% da serotonina, o hormônio do bem estar, que também é um precursor da melatonina, o hormônio indutor do sono. Sabe-se que o intestino, às vezes chamado de segundo cérebro, tem uma enorme parcela de contribuição em relação à saúde, tanto física quanto a mental. Pode-se dizer que o intestino tem função endócrina, imunológica e até neurológica.
Mas, quem é o grande responsável por tudo Isso? Em grande parte as bactérias que nós abrigamos em nosso corpo. Para cada célula humana, há cerca de 1.3 outras alienígenas. Bactérias, vírus, fungos, e outros, variando para mais ou para menos. Uma convivência que tanto pode ser harmoniosa e favorável, quanto desfavorável.
As bactérias que vivem em nosso corpo se alimentam das mesmas substâncias que nós. De acordo com o que ingerimos, essa população vai mudando, sendo equilibrada ou mesmo desequilibrada. Se determinada população nociva aumenta, a saúde pode está em risco. Esse desequilíbrio chama-se disbiose.
A depender do tipo de alimento com os quais abastecemos esses seres, teremos saúde ou doenças. As bactérias nos acompanham desde o nascimento até a morte. Já ao nascermos recebemos uma carga enorme de organismos microscópicos. A primeira inoculação acontece ainda no parto. Isto é, se for de parto normal. As cesarianas deixam as crianças desprovidas e sujeitas a problemas de saúde em maior número do que as de parto normal, justamente por não terem sido inoculadas pelas centenas de milhares de bactérias logo ao nascer. As infecções podem se manifestar ainda nos primeiros dias de vida.
Nos últimos 50 anos as doenças autoimunes e problemas de intolerância alimentar triplicaram. Diabetes tipo I, tipo II, psoríase, lúpus, esclerose múltipla, doença celíaca, fibromialgia, problemas na tireoide, entre outras de altíssima gravidade. Grande parte dessas doenças podem ter início justamente no intestino com uma flora intestinal desequilibrada. O ambiente funcionando como gatilho para ativar determinados genes. Esta é a conclusão de pesquisadores tais como Amy Myers, Alanna Collen, Frederick Backhed, David Perlmutter, e diversos outros. Hipócrates, o pai da medicina, já alertava que todas as doenças começam no intestino.
Existe uma relação direta entre intestino e cérebro. Essa relação se dá através do nervo vago e da produção de determinadas substâncias que influenciam questões desde o humor até outras de maior complexidade. Uma relação que afeta diversas funções do corpo. O nervo vago faz essa ponte intestino/cérebro. Um sistema de “feedback” em ação. Aí entra o estudo da microbiota e sua relação com as inúmeras doenças do século XXI.
Microbioma, flora intestinal, microbiota, são conceitos relacionados com a população de microrganismos vivendo em nosso intestino. São trilhões de bactérias, a maioria nos faz bem.
Quando se pensa em bactérias, logo vem à ideia de doenças, e por consequência, o extermínio usando antibióticos, é a primeira ideia. Mas, nem sempre e nem todas estão relacionadas a doenças. O equilíbrio e o tipo delas faz toda diferença.

Antibióticos

A Penicilina, o primeiro antibiótico. Desde a sua descoberta em 1928 por Alexander Fleming, os antibióticos vem sendo usado quase que rotineira e indiscriminadamente. A partir de 1940, o uso dos medicamentos se intensificou. Hoje em dia, o controle por órgãos de saúde, tem buscado evitar a automedicação por vários motivos, mas o principal, se dá por conta da resistência de microrganismos aos antibióticos. Quanto mais se usa, mais resistentes eles se tornam, o que dificulta o combate a doenças causadas por esses organismos.
Difícil encontrar nos dias atuais, alguém que não tenha usado antibióticos em algum momento da vida. Às vezes, horas depois do nascimento, já se faz uso de tais medicamentos. Quando usado com critério, faz bem porque elimina o patógeno. Mas, junto com o causador da doença, os antibióticos eliminam também todo um conjunto de outros organismos necessários à saúde. Aí que o problema pode ser ainda maior que a própria doença tratada. Isso ocorre, porque, ao se fazer uso dos antibióticos, a microbiota afetada, não é reposta. Ficando assim, um déficit de boas bactérias que farão uma falta enorme para o bom funcionamento tanto do corpo quanto da mente.
Os antibióticos foram e talvez ainda continuem sendo indiscriminadamente usados para engorda de animais. O frango, bovinos, suínos e outros. Assim que se descobriu que seu uso, também resultava em engorda desses animais que nós consumimos. O efeito engorda se dá pelo desequilíbrio causado na microbiota.
Pessoas magras tem determinada flora, diferente das obesas. Sabendo disso, experimentos em ratos e até em humanos, resultaram em transplante fecal. Ratos obesos se tornaram magros ao receberem uma microbiota de indivíduos também magros. Ou Ainda, humanos tratados de infecção intestinal causada pela Clostridium Difficile; um Bacilo Gram-Positivo altamente agressivo que pode causar inclusive a morte. Usando a técnica de transplante fecal, a Bacterioterapia, humanos têm sido curados. Hoje há pesquisas com a Terapia de Ecossistema Microbiano.
As bactérias em nosso corpo podem ativar ou mesmo desativar determinados medicamentos. Tornam-se resistentes aos antibióticos quando há exagero e uso prolongando.

Probióticos e Prebióticos – Alimentos Funcionais.

Há diversas publicações sobre a Síndrome do Intestino irritável. A dr. Myers chama de Intestino Permeável. Um intestino poroso permite que determinadas substâncias ultrapassem a mucosa intestinal. A causa está sempre no tipo de alimento consumido, o que também alimenta as bactérias em nosso microbioma.
O Alimento funcional é um alimento semelhante em aparência ao alimento convencional; consumido como parte da dieta usual; capaz de produzir demonstrados efeitos metabólicos ou fisiológicos úteis na manutenção de uma boa saúde física e mental, podendo auxiliar na redução de riscos de doenças crônico-degenerativas, além das funções nutricionais básicas (HEALTH CANADA, 1998).
O termo antibiótico significa, contra a vida. Probiótico, a favor da vida. Nesse contexto, entram os Probióticos e os Prebióticos como agentes de prevenção, e até tratamento de diversas patologias causadas pelo desequilíbrio da microbiota.
Probióticos são produtos tanto farmacêuticos como alimentares que contêm micro-organismos vivos, entre eles os lactobacilos e as bifidobactérias.
Prebióticos são alimentos, em especial, as fibras que estimulam a proliferação ou atividade de populações de boas bactérias no intestino.
O consumo de produtos adicionados de culturas probióticas está relacionado a efeitos benéficos em humanos, como: síntese de vitaminas e proteínas pré-digeridas; aumento na absorção de cálcio; inibição de patógenos no intestino; alívio da constipação; redução da intolerância à lactose; redução da incidência de tumores intestinais; diminuição do colesterol sérico; entre outros (SANDERS, 2003; SHEIL et al., 2007).
Alimentos tanto podem curar quanto nos adoecer e até matar. A chamada Medicina funcional tem por base a cura com base nos alimentos e o controle do ambiente que nos afeta. Aquilo que comemos, determina nosso nível de saúde. A medicina convencional busca a cura nos fármacos, drogas que sempre trazem efeitos colaterais, às vezes, tão graves quanto à própria doença.
Segundo HOUZEL (2017) sofremos hoje por termos condições de consumo de calorias em excesso. Não temos que correr risco para obtermos mais calorias, elas estão disponíveis em supermercados, nas prateleiras cheias de facilidades com apetitosas guloseimas.
Alguns ótimos alimentos dentro dessa linha dos Prebióticos e Probióticos que promovem saúde e bem estar. Há diversos outros.
  • Kefir – Leite fermentado
  • Iogurte
  • Chucrute – Repolho Fermentado
  • Chocolate escuro – Cacau (antioxidante)
  • Microalgas
  • Sopa de Miso
  • Kimichi (Conserva de repolho coreano).
O mercado de alimentos funcionais representa uma demanda nova do consumidor informado, que busca alimentos diferenciados (STRINGHETA et al., 2007).
Quando o assunto é saúde, nem tudo que nos afeta está ligado à genética. Para que muitas doenças se desenvolvam, é necessário um gatilho que dispare, ative aquele gene que vai nos afetar. Os estudos em epigenética explicam essa relação. Aí entram o ambiente e os alimentos que ingerimos, e, que irão alimentar as bactérias, tanto nocivas quanto benéficas a nossa saúde.
Embora muitos especialistas possam divergir quanto a determinados alimentos benéficos ao ser humano, existe uma unanimidade, o consumo de fibras em maior quantidade do que as carnes, gorduras e outros, melhoram em muito a saúde. Probióticos e Prebióticos precisam fazer parte de nossa rotina alimentar.
A expectativa de vida aumentou bastante nas últimas décadas. Viver muito com qualidade de vida deve ser o lema. De nada adianta viver muito, mas doente em um leito de hospital ou dependente.

Bibliografia
FRANCIS, Richard. Epigenética. Rio de Janeiro. Editora Zahar, 2011.
HOUZEL, Suzana. A vantagem Humana. São Paulo. Companhia das Letras, 2017.
MYERS, Amy. Doenças Autoimunes. São Paulo. Editora WMF, 2017.
PERLMUTTER, David. Amigos da Mente. São Paulo. Editora Schawarca S.A. 2015.
SIEGFRIEND, Donna. Biologia para Leigos. Rio de Janeiro. Alta Books, 2010.
COLLEN, Alanna. 10% Humano. Rio de Janeiro. Editora Sextante, 2015.

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